Corações & Mentes

"Se eu quiser proteger meus pés dos espinhos, onde encontrar couro suficiente para cobrir toda o planeta? Mas se eu apenas usar couro sob meus pés é como se toda a Terra estivesse coberta" – Shatideva

Quatro Lições de DivertidaMente Para Discutirmos Com as Crianças

Desde sua estréia no mês passado, DivertidaMente foi aplaudido por críticos e adorado pela platéia e tornou-se um favorito para o prêmio de melhor animação da Academia Americana de Cinema.

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Mas talvez sua grande conquista tenha sido essa: Ele levou sua platéia, tanto os mais jovens quanto os mais velhos, a olhar para sua própria mente. Como você provavelmente já sabe, a maior parte do filme se passa dento da cabeça de uma menina de onze anos chamada Riley. Lá encontramos cinco emoções – Alegria, Tristeza, Raiva, Medo e Nojinho (de “disgust” em inglês que significa aversão, asco, repugnância em português) – encarnadas por personagens que ajudam Riley a navegar pelo mundo. O filme tem coisas profundas a nos ensinar sobre a natureza das emoções – o que não é uma coincidência, conforme o diretor do Greater Good Science Center (Centro de Ciências Bem Maior) da Universidade da Califórnia – Berkeley, Dacher Keltner, que serviu de consultor para o filme, ajudando a garantir que, apesar das obvias licenças poéticas, a mensagem fundamental sobre as emoções é consistente com as pesquisas científicas.

Apesar de DivertidaMente ter habilidosamente aberto as portas para conversarmos sobre as emoções, ainda pode ser difícil desenvolver essas conversas ou responder as perguntas das crianças. Então, para os pais e professores que querem discutir o filme DivertidaMente com seus pimpolhos, destilamos quatro dos principais insights sobre nossa vida emocional juntamente com pesquisas para fundamentar a discussão.

1. Felicidade não é só alegria. Quando o filme começa, a emoção Alegria é quem comanda os controles da mente de Riley; seu objetivo principal é assegurar-se de que Riley esteja sempre alegre. Mas no final do filme, Alegria – assim com Riley e o público – aprende que há muito, mas muito mais em ser feliz do positividade ilimitada. Inclusive, na parte final do filme, quando Alegria cede o controle para outras emoções, principalmente a Tristeza, Riley parece alcançar uma felicidade mais profunda.

Inside_Out_Joy

Isso reflete a forma como muitos pesquisadores das emoções veem a felicidade. Sonja Lyubomirsky, autora do best seller A Ciência da Felicidade, define essa emoção como “a experiência de alegria, contentamento ou bem estar, combinada com um sentimento de ter uma vida boa, significativa e que vale a pena”. Portanto, enquanto emoções como a alegria definitivamente fazem parte da felicidade, elas não definem felicidade.

Um estudo recente percebeu que pessoas que experimentam uma maior diversidade emocional, tanto positiva quanto negativa, tem melhor saúde mental. Os autores desse estudo sugerem que sentir uma grande variedade de emoções específicas pode fornecer informações mais detalhadas sobre uma situação em particular, resultando portanto em melhores escolhas comportamentais – e potencialmente maior felicidade.

Por exemplo, em um momento decisivo do filme, Riley se permite sentir tristeza, além de medo e raiva, sobre a ideia de fugir de casa; como resultado, ela desiste de seu plano. Essa escolha faz com que Riley volte para sua família, o que lhe proporciona um sentimento de felicidade e contentamento mais profundo ao ser reconfortada por seus pais, apesar de estar misturado com tristeza e medo.

À luz disso, os criadores de DivertidaMente, incluindo o diretor Pete Docter, tomaram a inteligente decisão de nomear a personagem mental principal de Alegria ao invés de Felicidade. Afinal, alegria é apenas um dos elementos da felicidade, e a felicidade pode ter um toque de outras emoções, até mesmo tristeza.

2. Não force a felicidade.  Alguns de nós sentimos uma frustração familiar quando a mãe de Riley pediu que continuasse a ser “menininha feliz” enquanto sua família se adaptava à mudança de cidade e seu pai passava por um momento difícil no trabalho. Como uma crianças, podemos ter sido expostos a mensagens similares e por isso pensado que talvez tivesse algo de errado conosco se não estivéssemos felizes o tempo todo. Todas as pesquisas e a importância que a mídia tem dado à felicidade nos últimos anos pode deixar essa mensagem ainda mais potente.

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Ainda bem que os pesquisadores das emoções June Gruber e seus colegas começaram a estudar as nuanças da felicidade e da busca pela felicidade. Suas descobertas desafiam o imperativo de estar “sempre feliz”, que provavelmente foi imposto a muitos de nós.

Por exemplo, suas pesquisas sugerem que fazer da felicidade uma meta explicita na vida pode na realidade nos fazer sentir muito mal. Iris Mauss, colega de Gruber, descobriu que quanto mais as pessoas lutam pra ser feliz, maior a chance de estabelecerem padrões muito elevados de felicidade para si mesmas e terminarem desapontadas – e menos felizes- quando não são capazes de alcançar esses padrões o tempo todo.

Portanto, não deveríamos nos surpreender com fato de que que tentar se forçar a ser feliz não ajudou Riley a lidar com o estresse e os períodos de transição da vida. Na verdade, essa estratégia não só falhou em lhe deixar mais feliz mas também parece que a fez sentir-se isolada e com raiva de seus pais, o que a levou a decisão de fugir de casa.

Qual seria um o caminho mais eficiente para a felicidade Riley? Pesquisas recentes apontam a importância de “priorizar a positividade” – buscarmos deliberadamente mais tempo para as experiências que pessoalmente apreciamos. Para Riley isso seria hockey no gelo, passar tempo com os amigos ou ficar com os pais.

Mas priorizar a positividade não requer que evitemos ou neguemos os sentimentos negativos ou as situações que os causam – isso seria uma abordagem muito superficial e que pode ser contra-produtiva.

3. Tristeza é fundamental para nosso bem-estar. No começo do filme, Alegria admite que não entende pra que serve a Tristeza e por que ela está na cabeça de Riley. Em certas ocasiões, muitos de nós provavelmente nos perguntamos qual o propósito da tristeza em nossas vidas.

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É por isso que gostamos que a Tristeza ao invés da Alegria tenha surgido como a heroína do filme. Por que? Porque a Tristeza nos conecta profundamente com as pessoas – um componente crítico da felicidade – e ajuda Riley a fazer o mesmo. Por exemplo, quanto o amigo imaginário de Riley, Bing-Bong, que há muito havia sido esquecido, sente-se rejeitado após perder o seu carrinho, é a empatia e compreensão da Tristeza que o ajudam a se recuperar, e não a tentativa da Alegria de tentar dar um foco positivo na situação. (Interessante que essa cena ilustra um achado importante das pesquisas sobre felicidade, que é que as expressões de felicidade devem ser apropriadas à situação.)

Em uma das grandes revelações do filme, Alegria olha uma das “memórias base” de Riley – quando ela perdeu uma jogada em uma importante partida de hockey – e percebe que a tristeza que Riley sentiu depois do jogo provocou a compaixão de seus pais e amigos, fazendo-a sentir-se mais próxima a eles e transformando essa potencialmente terrível memória em algo imbuído de profundo significado.

Com grande sensibilidade, DivertidaMente mostra como emoções duras como a tristeza, o medo e a raiva podem ser extremamente desconfortáveis – o que justifica nossos esforços para evitá-las. Mas no filme, como na vida real, todas essas emoções tem um propósito muito importante, ajudando-nos a perceber melhor o ambiente interno e externo para conectarmos melhor uns com os outros, evitando perigo ou ajudando-nos a nos recuperar de uma perda.

Mas façamos uma ressalva: Apesar de ser importante ajudarmos as crianças a abraçar a tristeza, pais e professores precisam explicar a elas que tristeza não é o mesmo que depressão – uma desordem que envolve períodos prolongados de tristeza intensa. Adultos precisam criar ambientes seguros e confiáveis para que as crianças sintam-se seguras em pedir ajuda ao perceberem-se tristes ou deprimidas.

4. Conscientemente abraçar – ao invés de suprimir – emoções pesadas. Em um certo ponto, Alegria tenta impedir que Tristeza tenha qualquer influência na psique de Riley, desenhando o pequeno “circulo da Tristeza” com um giz e instruindo-a que fique lá dentro. É um momento engraçado, mas psicólogos reconhecem que Alegria está adotando um comportamento arriscado chamado “supressão emocional” – uma estratégia de regulação das emoções que hoje sabemos causar ansiedade e depressão, especialmente entre adolescentes, que ainda estão aprendendo a lidar com suas emoções. É claro que, para Joy, e também para Riley, o tiro acaba saindo pela culatra.

Mais adiante, na cena descrita acima, quando Bing Bong perde seu carrinho, Alegria tenta reavaliar cognitivamente ,ou mudar como Bing Bong pensa na situação, para alterar positivamente sua resposta emocional – uma estratégia que historicamente tem sido considerada a forma mais eficiente de regular emoções. Mas esse método de regulação emocional não é sempre a melhor abordagem. Cientistas tem descoberto que, dependendo da situação, isso aumenta, ao invés de diminuir, a depressão.

Já no final do filme, Alegria faz o que alguns cientistas consideram o método mais saudável para trabalharmos com as emoções: Ao invés de evitar ou negar a existência da Tristeza, ela a aceita pelo que é, percebendo que Tristeza é um parte importante da vida emocional de Riley.

Experts em emoções chamam isso de “abraçar com consciência”. O que isso significa? Ao invés de ficarmos presos ao drama de uma reação emocional, conscientemente e gentilmente observamos a emoção, sem julgamento sobre o que é correto ou não sentir em uma determinada situação, criando espaço para escolhermos uma forma saudável de agir. Um estudo de 2014 concluiu que adolescentes deprimidos e jovens que adotaram uma abordagem consciente das emoções mostraram níveis mais baixos de depressão, ansiedade e mau comportamento, assim como uma melhor qualidade de vida.

Inside_Out_Joy_and_Sadness

Claro que DivertidaMente não é a primeira tentativa de ensinar quaisquer dessas quatro lições, mas é difícil pensar em qualquer outra mídia que tenha simultaneamente movido e divertido tantas pessoas no processo. É um exemplo brilhante do poder da mídia em mudar nossa compreensão sobre a experiência humana – uma mudança que, nesse caso, esperamos promover conexões mais profundas e compassivas conosco mesmo e com aqueles que nos cercam.

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Publicado às 20 de julho de 2015 por em Bem Estar, Felicidade e marcado .
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