Corações & Mentes

"Se eu quiser proteger meus pés dos espinhos, onde encontrar couro suficiente para cobrir toda o planeta? Mas se eu apenas usar couro sob meus pés é como se toda a Terra estivesse coberta" – Shatideva

Não Há Nada de Especial em Nossos Sentimentos

A vida não é fácil, é cheia de altos e baixos. Coisa boas e ruins acontecem o tempo todo. E todos, sem excessão querem ser felizes.

Sentimentos.jpg

Mas a felicidade parece ser um estado um tanto elusivo. Achamos que a felicidade depende do que estamos fazendo no momento ou do lugar onde estamos. Mas você já parou para pensar nas ocasiões em que estava fazendo uma coisa que gostava ou estava em uma lugar maravilhoso, um praia paradisíaca, e mesmo assim estava triste ou desanimado? E outras vezes podemos fazer atividades extremamente extenuantes,  como um exercício físico, e nos sentirmos felizes. A felicidade depende muito mais do nosso nível de satisfação geral com a vida, e da nossa atitude em relação às situações, do que da atividade que estamos executando ou do lugar onde nos encontramos. A atitude é a forma como consideramos um evento. Nossa atitude pode mudar completamente a nossa percepção de um evento.

Podemos mudar nossa atitude de duas maneiras: Uma é deixando de ter uma atitude destrutiva, ou improdutiva. A outra é treinando para olhar as diversas situações pelas quais passamos de uma forma mais produtiva. Mas isso não é a mesma coisa que ter  “pensamento positivo”, que ser super otimista. O pensamento positivo pode até ajudar, mas é uma atitude muito simplista. Para realmente mudarmos nossas atitudes, precisamos olhar mais a fundo.

Podemos começar com um problema que quase todos temos, que é exagerar a importância do que sentimos. Damos uma importância enorme ao nosso “eu”, e mais ainda ao que sentimos. Temos medo de sentimentos desagradáveis e tentamos ao máximo nos proteger deles, procurando afastá-los a qualquer custo. Mas quanto mais focamos em resolver “o problema”, pior ele fica. Quando exageramos a importância do que sentimos, criamos um “eu” de um lado e “um monstro” do outro.

Fazemos o mesmo com sentimentos agradáveis. Temos medo que passem, como se estivessem em algum lugar separado do “eu”. Tentamos segurá-los, nos agarrar a eles. Temos tanta insegurança e medo de perdê-los, que isso acaba com nosso bem estar. Fica difícil simplesmente relaxar e apreciar a felicidade.

E existe a sensação de neutralidade. Novamente temos a impressão de haver um “eu” aqui e um sentimento “neutro” se aproximando. Exageramos a sensação neutra e a transformamos em “nada”, em coisa alguma. Achamos que não estamos sentindo nada, que não estamos vivos! E corremos atrás de algum entretenimento que nos desperte sensações agradáveis ou mesmo desagradáveis. Qualquer coisa que comprove que estamos vivos.

Para cada um desses sentimentos, agradáveis, desagradáveis ou neutros, quanto mais os exageramos, quanto mais importância lhes damos, quanto mais nos apegamos ou repelimos, pior nos sentimos. Por isso, nossa atitude em relação aos sentimentos é crucial.

Imagine que você tem três pratos de comida na sua frente. Um é delicioso, um é horrível e o outro é apenas suave; são como os sentimentos agradáveis, desagradáveis e neutros. Em certo sentido, é como se pudéssemos escolher não comer; mas não podemos fazer isso com sentimentos.

A primeira coisa que podemos fazer para nos livrar do desejo ou apego às sensações agradáveis, da aversão às sensações desagradáveis e da indiferença ou aversão à neutralidade, é ter uma atitude de “não há nada de especial sobre o que estou sentindo”. A vida tem altos e baixos. Às vezes nos sentimos bem e outras nos sentimos mal, e às vezes nenhum sentimento se destaca. Não há nada surpreendente nisso e não há nada de especial a nosso respeito. Não existe uma forma “certa” de se sentir. A vida continua, independente de como nos sentimos. Precisamos estar conscientes do que  sentimos, mas ao mesmo tempo não dar demasiada importância a isso.

Quando temos uma sensação desagradável, achamos que ela vai nos sufocar, tentamos nos proteger achando que não vamos aguentar. Como se ela viesse de algum outro lugar e fosse “acabar comigo”. E quando temos um sentimento agradável, podemos achar que não merecemos, que tem alguma coisa errada, ou ficarmos com medo que ele vá embora. E existem pessoas, por exemplo, que não suportam sentimentos neutros, que precisam estar constantemente entretidas com alguma coisa, que têm medo da sensação neutra do silêncio.  Por que? Simplesmente porque exageram a importância dos sentimentos. Sentimentos são parte da vida, são a forma de experimentarmos o mundo, são aquilo que nos faz diferentes de uma câmera de vídeo, que captura sons e imagens mas não sente coisa alguma. Portanto, não há nada de especial em nossos sentimentos.

É claro que queremos sensações agradáveis, mas também é claro que todas as sensações aparecem e depois somem. Sabendo disso, não há motivo para nos preocuparmos. E isso nos libera para apreciar a felicidade, pelo tempo que durar.

Não há nada particularmente especial sobre a maneira como você se sente, e não nada de especial a respeito do seu “eu”, e ele não está separado desses sentimentos e nem precisa ser protegido. A vida tem altos e baixos, essas sensações são apenas parte da experiência humana.

O desejo de ser feliz é quase biológico, e não há nada de errado nisso. Precisamos buscar a felicidade. Mas nos momentos que sentimos felicidade, precisamos reconhecer sua natureza transitória e apreciá-la no aqui e agora. Quanto mais tranquilos nos sentirmos a esse respeito, mais felizes seremos. E às vezes nos sentiremos infelizes, mas e daí? Já não era de se esperar? Não há nada de mais nisso. Nada de especial.

Ao treinarmos uma atitude de acolhimento e compaixão em relação aos nossos sentimentos, abrimos a porta para uma experiência mais tranquila e feliz de toda as experiências da vida.

Texto livremente traduzido e adaptado de Nothing Special About Ourselves and Feelings – Alexander Berzin

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 5 de dezembro de 2016 por em Sem categoria.
dezembro 2016
D S T Q Q S S
« nov   fev »
 123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts por email.

%d blogueiros gostam disto: