Corações & Mentes

"Se eu quiser proteger meus pés dos espinhos, onde encontrar couro suficiente para cobrir toda o planeta? Mas se eu apenas usar couro sob meus pés é como se toda a Terra estivesse coberta" – Shatideva

O Lado Bom da Tristeza

Há alguns anos atrás, meu casamento acabou. Ficamos juntos por 25 anos, a maior parte de minha vida adulta. Além de todas as questões de caráter prático que precisamos lidar no caso de um divórcio (custódia, dinheiro, propriedades), eu me vi em uma tempestade de emoções desafiadoras. Indignação e raiva era o que eu mostrava para o mundo (frustração, medo e  presunção eu escondia). Esses sentimentos surgiam e desapareciam como nuvens, às vezes chegavam e partiam em uma rajada de vento, outras vezes ficavam ali por dias intermináveis, em um padrão que eu não tinha como prever. Mas havia sempre uma subcorrente de tristeza — pela perda do sonho do casamento, e simplesmente porque eu desejava, profundamente, que tivesse sido diferente.

Minha experiência e coração partido não são uma exclusividade, e não são exclusividade de quem passa por um divórcio. Conhecer o peso da tristeza é parte da experiência humana, é ser humano. Efêmera ou persistente, aguda ou morna, parecendo que vai acabar com a gente ou que vai ser só um pano de fundo, a tristeza atinge a todos nós:

A perda de um amor ou amizade e a experiência desorientadora de ver a paisagem mudar sem que possamos fazer nada.

Deixar seu filho na creche pela primeira vez, e o sentimento de culpa e de que o tempo passa rápido demais.

A pilha de folhas no seu prato, que lhe faz pensar se realmente conseguirá manter-se na dieta.

Um carro quebrado que faz um rombo em seu orçamento; mais uma coisa para se preocupar.

A roupa suja no pé da cama, apontando para a solidão de ser solteiro.

Quando a consciência da dor e sofrimento dos outros seres nos pega com força total.

Podemos dizer que tristeza é a emoção que surge quando percebemos algumas lamentáveis verdades sobre estar vivo: perdemos coisas, as pessoas têm defeitos, às vezes a vida é dura, e, eventualmente, acaba. E quando a tristeza chega, chegamos à conclusão inevitável de que “Agora é assim”.

Devo lembrar que aqui estamos falando de tristeza, e não da incessante e persistente desordem que é depressão clínica. Se você tem estes sentimentos consistentemente por muitos dias: se não tem energia para nada, tem problemas para dormir, comer ou cognitivos, pode estar sofrendo de depressão e deve procurar um tratamento adequado.

Por mais inescapável que a tristeza seja, nosso astuto cérebro humano gosta de contornar as fronteiras da tristeza e se libertar dela. Nos distraímos, evitamos, colocamos uma música triste para compartilhar da humanidade da tristeza. Paramos abruptamente de chorar e logo enxugamos as lágrimas. Mas ao que estamos tentando resistir?

A prática da presença mental é estar presente em todos os momentos, não só os agradáveis ou neutros. Visitar os lugares mais sombrios e desconfortáveis — aqueles que normalmente evitamos — pode nos proporcionar insights poderosos, apurar nossa atenção e aprofundar a compaixão, por nós e pelos outros. 

Se a verdade e os insights estão na tristeza (da mesma forma que estão na alegria, na satisfação e na admiração),  como seria simplesmente contemplar a verdade — encontrar-se no meio da melancolia e ver o que há ali para aprender e descobrir? A prática da presença mental é estar presente em todos os momentos, não só os agradáveis ou neutros. Visitar os lugares mais sombrios e desconfortáveis — aqueles que normalmente evitamos — pode nos proporcionar insights poderosos, apurar nossa atenção e aprofundar a compaixão, por nós e pelos outros. Talvez possamos deixar a tristeza ser nossa companheira pelo tempo que for necessário para escutarmos o que ela tem a nos dizer.

Simplesmente É Assim

Perda, desapontamento, mudança — essas coisas que evocam tristeza normalmente estão fora do nosso controle. É simplesmente como o mundo funciona. Não importa o quanto tentemos fugir, essas coisas simplesmente acontecem. Assim como acontece de ficarmos tristes. Ficamos tristes porque queríamos que as coisas fossem diferentes. Porque pessoas, momentos e até mesmos os números da balança, são importantes para nós. Porque nos importamos, esperamos, e talvez até ousamos sonhar.

Às vezes, as raízes da tristeza estão na vergonha e no sentimento de inadequação, que podem nos levar a uma espiral destrutiva. Quando alguma coisa dá errado, é fácil esquecermos a inevitabilidade da mudança. Mas se não conseguirmos ter uma perspectiva mais ampla da nossa experiência, a tristeza pode sair do controle. “Eu não gosto de sentir isso” torna-se “eu não quero sentir isso”, que torna-se “eu não devia estar sentindo isso”, que torna-se “tem alguma coisa errada comigo porque estou sentindo isso”, que torna-se “eu sou errado”.

Quando vivemos no mundo distorcido da vergonha e da inadequação — “sou um caso único de uma pessoa errada e defeituosa e, portanto, ninguém vai me amar” — a tristeza pode nos levar ao isolamento, à ruminação e à depressão. Portanto, fazer de nossa “inadequação” o motivo da tristeza, ficar mergulhado nela, fazer disso uma ocupação, pode não ser uma boa forma de conduzir esse sentimento.

Por outro lado, não podemos negar a tristeza. “Sai dessa”, somos rápidos em nos dizer. “Engole o choro”. “Não tem nada demais. Eu nem queria mesmo”. O fato é que, sabemos que quanto mais resistimos mais o sentimento persiste. Já tentou NÃO se preocupar? Funcionou? É possível contornar sentimentos dolorosos, erguer barreiras, túneis para atravessar ou manter-se acima das coisas ruins. Mas isso só cria uma calma e uma tranquilidade superficiais, enquanto uma úlcera vulcânica se desenvolve por baixo. Algum dia ela vai explodir.

No que diz respeito à tristeza, assim como qualquer outra emoção que nos deixa desconfortável, vulnerável, que se impõe em nossos dias e vidas sem permissão, existe um meio termo: não resistir, mas também não mergulhar e chafurdar no sentimento, simplesmente aceitar a realidade da situação:

Eu tentei, mas não funcionou. Isso aconteceu e dói. Estou desapontado. Estou com medo. Estou sozinho.

Durante meu divórcio, descobri que quando abordava minha tristeza com carinho, isso me ajudava a focar. Eu me sentia mais calmo. Na verdade a tristeza me foi poderosamente útil e eficaz quando eu a deixei se manifestar, quando não fiquei brigando com ela. A tristeza foi o que equilibrou minha raiva quando eu quis explodir, dizer coisas que machucam ou fazer coisas das quais depois me arrependeria. Nos momentos em que consegui admitir que a tristeza se fazia presente, ela me levou de volta a mim mesmo, à pessoa que realmente sou e conheço: Um homem que simplesmente quer ser feliz e estar livre do sofrimento.

Dica: Quando estiver realmente em uma situação difícil, permita-se tirar um “dia da tristeza” para sentir todas as suas emoções. Cancele outros planos, escute uma música que lhe toca, veja fotos antigas, se encolha no sofá, faça uma caminhada silenciosa no parque. No final, reconheça que você tirou o tempo que precisava, e lembre-se que amanhã marca o início de um novo tempo.

Honrando a Tristeza

O convite, a abordagem mais compassiva, é a pausarmos para considerar a urgência do momento de tristeza e também o quanto valorizamos aquilo que perdemos, ou que não conseguimos, ou que mudou. Se não conseguimos o emprego ou a promoção, a tristeza mostra o quanto valorizamos o trabalho. Talvez a tristeza nos lembre do quando precisamos de amor e de amigos que nos apoiem quando perdemos um amigo.  Quando percebemos como as crianças estão crescendo rápido, a tristeza nos lembra de como amamos esses pequenos seres, e reflete nosso coração que valoriza nossas conecções e responsabilidades.

Isso não é só “ver o lado bom das coisas”, isso nos faz lembrar o que valorizamos. Se não valorizamos alguma coisa, não ficamos tristes quando a perdemos.

Podemos aprender a ter um relacionamento menos doloroso com a tristeza. E isso começa com acolher os sentimentos difíceis quando eles aparecem.

Da mesma forma, podemos aprender a ter um relacionamento menos doloroso com a tristeza. E isso começa com acolher os sentimentos difíceis quando eles aparecem. Uma forma de fazer isso é reconhecer que estamos sofrendo e que somos dignos de sermos reconfortados, acalmados, de termos autocompaixão. A maioria de nós é muito bom em cuidar dos outros, mas negamos a nós mesmos a mesma compaixão. E se conseguíssemos, quando a tristeza chegar (e elas inevitavelmente chega), nos confortar da mesma maneira que confortamos um amigo quando ele está triste? O que diríamos a ele, o que faríamos, que tom de voz usaríamos? Será que poderíamos dizer: “ Isso é TÃO difícil, eu sei o quanto dói, estou aqui pra você” Será que poderíamos nos fazer um chá e simplesmente deixar-se ficar com a tristeza? Assim como fazemos com um amigo, oferecemos compaixão, mas não para nos livrar da dor, e sim porque é desconfortável sentir dor.

Quando somos gentis conosco em tempos difíceis, transformamos a forma como nos relacionamos com o sofrimento: de evitar e resistir para aceitar e ser afetuoso. Abrandar nosso relacionamento com um sentimento que já está presente, nos permite olhar para ele com algum grau de curiosidade e disposição de ouvir o que ele está querendo nos dizer. Escutar nossa sabedoria interna surgir das sombras da tristeza.

Ao tratar minha tristeza com gentileza e respeito, pude admitir que amei minha esposa e tive a melhor das intenções com nossa união. Isso, por sua vez, me permitiu me olhar no espelho e simplesmente me tratar (e a ela, em muitas ocasiões) com gentileza, pela dificuldade de um divórcio.

Quando deixamos de forçar um sentimento desconfortável a ir embora, percebemos que podemos estar mais presentes com ele e escutar o que ele tem a dizer: “eu valorizo isso”. Isso está longe de ficar chafurdando, ruminando ou se perdendo na própria tristeza, levando-a para o lado pessoal e fazendo dela nossa missão, nossa cruz, nosso fardo.  É honrar nossa jornada pela vida, honrar igualmente nossos amores e perdas, nossas esperanças e desapontamentos.  Com a tristeza, podemos aprender a simplesmente apreciar a presença desse pequeno episódio de sofrimento como um reflexo de nossa totalidade e de nossa condição humana.

Texto livremente traduzido do original The Upside of Happiness

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Um comentário em “O Lado Bom da Tristeza

  1. Clr
    7 de julho de 2017

    Muito bom

    Curtido por 1 pessoa

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Publicado em 19 de junho de 2017 por em auto-compaixão, Compaixão, Equilíbrio Emocional.
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