Corações & Mentes

"Se eu quiser proteger meus pés dos espinhos, onde encontrar couro suficiente para cobrir toda o planeta? Mas se eu apenas usar couro sob meus pés é como se toda a Terra estivesse coberta" – Shatideva

Desenvolvimento Pessoal: a Quem Beneficia?

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Hoje em dia, fala-se cada vez mais sobre “desenvolvimento pessoal”, uma expressão utilizada de forma muito vaga e adaptada conforme o contexto; que tornou-se uma espécie de panacéia, que não distingue entre uma fórmula de sete passos para atrair os outros e ser feliz em uma semana de textos que buscam fazer brilhar a luz interior, a fim de nos tornarmos seres humanos melhores. Esses textos são baseados em métodos enraizados, não em modismos, mas em tradições de sabedoria praticadas durante milhares de anos por indivíduos que dedicaram a maior parte de suas vidas ao seu cultivo.

Hoje, quando falamos de desenvolvimento pessoal, quase sempre o que é proposto são mudanças cosméticas que procuram mimar as nossas tendências narcisistas, ao invés de erradicar as nossas falhas e dissipar o nevoeiro da nossa confusão mental.

Dentro das tradições mundiais de sabedoria, quer tenham origens religiosas, espirituais ou humanísticas, a autotransformação nada tem a ver com agradar o ego ou realizar seus caprichos. Ao invés disso, a auto-transformação deve nos ajudar a tornar-nos gradualmente melhores seres humanos através do trabalho duro. Essa afirmação pode parecer pretensiosa no início, contudo a verdadeira meta da autotransformação é erradicar a animosidade, o apego obsessivo, a falta de discernimento, a arrogância, o ciúme e outros venenos mentais que perturbam a nossa vida e a dos outros. Não é uma tarefa fácil.

Portanto, não é nem um compromisso de curto prazo, nem uma abordagem autocentrada e nem uma fuga, onde aprendemos a abraçar as próprias falhas mas dispensamos o esforço para corrigi-las. Acima de tudo, devemos nos perguntar quem se beneficiará de nosso “desenvolvimento pessoal”. Se for só nós mesmos, então é um total desperdício de tempo.

A autotransformação só é significativa se nos permitir, fundamentalmente, ser de maior serviço aos outros. Desenvolvimento pessoal sem bondade, é nada mais do que a construção de uma torre de marfim de egocentrismo. Meditação sem bondade-amorosa é equivalente a passar alguns momentos de silêncio na bolha do nosso próprio ego.

A auto-transformação só é significativa se nos permitir, fundamentalmente, ser de maior serviço aos outros.

A transformação pessoal deve nos ajudar a sair da confusão para o conhecimento, da escravidão para a liberdade interior. Seu objetivo é efetivar o bem-estar dos outros. Há um ensinamento budista que diz: “O que não é feito para o bem dos outros, não merece ser feito.” Não diga que não foi avisado!

Texto de Matthieu Ricard, publicado originalmente no Linkedin do autor

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Publicado em 16 de setembro de 2017 por em Sem categoria.
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