Corações & Mentes

"Se eu quiser proteger meus pés dos espinhos, onde encontrar couro suficiente para cobrir toda o planeta? Mas se eu apenas usar couro sob meus pés é como se toda a Terra estivesse coberta" – Shatideva

Sabemos que a comida industrializada está nos deixando doentes. Será que os “valores industrializados” estão nos deixando deprimidos?

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A comida industrializada está dominando nossa dieta, e deixando milhões de pessoas fisicamente doentes. Um crescente corpo de evidências científicas sugere que algo similar está acontecendo como nossas mentes – elas estão sendo dominadas por valores industrializados, e isso está nos deixando mentalmente doentes, aumentando vertiginosamente os casos de depressão e ansiedade.

Durante milhares de anos, os filósofos vêm nos advertindo que, se você pensar que a vida é ganhar dinheiro, status ou prestígio, será profundamente infeliz. Mas será que isso é realmente verdade?  Na década de 1980, um cientista social e professor chamado Tim Kasser decidiu testar se a sabedoria tradicional sobreviveria ao escrutínio da ciência.

Kasser, que atualmente leciona na Universidade de Illinois, percebeu que são basicamente dois tipos de motivação que dirigem o ser humano. Imagine que você toca piano. Se você costuma tocar pela manhã porque isso lhe traz alegria, isso é um motivo intrínseco – você não está tocando porque espera ganhar alguma coisa com isso; você está tocando simplesmente porque acha que é uma atividade que vale a pena fazer, por si só.  Agora, imagine que toca piano só para impressionar seus pais ou em toca em um boteco que detesta, porque precisa de dinheiro para pagar o aluguel, ou então para seduzir alguém a dormir com você. Esses seriam motivos extrínsecos – você não está fazendo isso porque acredita que a experiência vale a pena; você está fazendo porque está interessado em outra coisa.

Somos todos movidos por uma complexa mistura de motivos intrínsecos e extrínsecos. Lutar para ganhar mais dinheiro ou status ou coisas caras, só para ter mais dessas coisas é um exemplo de motivação extrínseca.

O que Kasser queria descobrir era: De que forma essas motivações nos afetam? Ele investigou essa questão através de uma gama de técnicas, que incluíram análises correlacionais de amplas populações, experimentos de laboratório e diários das pessoas. Os resultados foram surpreendentes. As pessoas que alcançaram seus objetivos extrínsecos não sentiram nenhum aumento em sua felicidade do dia a dia. Nenhum. A promoção? O carro bacana? O novo iPhone? O colar caríssimo? Nada disso aumentará nem um pouco a sua felicidade.

Já as pessoas que alcançaram seus objetivos intrínsecos ficaram sim significativamente mais felizes, e menos deprimidas e ansiosas. À medida que trabalhavam nesses objetivos e sentiam que se tornavam, digamos, amigos melhores, ficavam mais satisfeitas com a vida. Ser um pai melhor? Dançar simplesmente pelo prazer de dançar? Ajudar uma outra pessoa, simplesmente porque acredita que é correto? Tudo isso aumenta significativamente sua felicidade.

Kasser descobriu que a vida das pessoas dominadas por valores extrínsecos era mais difícil em quase todos os campos. Elas ficavam mais doentes, e sentiam mais raiva. Tinham menos experiências de alegria e mais de desespero. Tinha relacionamentos piores e eram mais inseguras.

Vinte e dois estudos diferentes – de Kasser e de outros cientistas da área – descobriram que quanto mais materialista e extrinsecamente motivado você for, mais deprimido será.  Doze estudos concluíram que esses valores estão correlacionados com o aumento da ansiedade.

Comida industrializada parece comida, mas não supre nossa necessidade nutricional. Da mesma forma, valores industrializados não suprem nossas necessidades psicológicas – de viver com significado e conexão. Os valores extrínsecos são o McDonald’s da alma. No entanto, nossa cultura nos empurra constantemente para uma vida extrínseca.

Um estudo de 1978 ajudou a revelar como esse processo funciona. Pesquisadores mostraram para um grupo de crianças dois anúncios de um brinquedo, e para um segundo grupo não mostraram anúncios. Então permitiram que as crianças escolhessem entre brincar com um menino legal que não possuía o brinquedo, ou um menino não tão legal, mas que possuía o brinquedo. A maioria das crianças que não viram os anúncios escolheram o menino legal. Porém, a maioria das crianças que viram os anúncios escolheram o menino que não era tão legal. Foi preciso apenas dois anúncios para predispor as crianças a preferirem um objeto inanimado de plástico à bondade e gentileza humana, e à possibilidade de uma conexão mais significativa.

Qualquer mãe ou pai que já escolheu ficar mais tempo no trabalho para comprar alguma coisa cara e brilhante para o filho, ao invés de ir para casa brincar com ele, está preso nessa mesma dinâmica. Vivemos em um sistema, diz Kasser, que constantemente “rouba nossa atenção do que é realmente bom na vida”.

Apesar de estarem constantemente nos dizendo que a epidemia de depressão e ansiedade é o resultado de um desequilíbrio químico, ela é, de muitas maneiras, consequência de nosso estilo de vida. O melhor antidepressivo, portanto, é mudar seu estilo de vida. Para Kasser, isso significou mudar com sua família para uma fazendo cheia de cabras, onde não assistem televisão e não se expõem a essas mensagens tóxicas.  Mas ele é a favor de uma revolução mais ampla em nossos valores. A primeira coisa que nos recomenda fazer é reduzir a quantidade de toxinas psicológicas do ambiente em que vivemos, diminuindo radicalmente nossa exposição a anúncios.

Existe uma velha ideia chamada de Regra de Ouro, que diz que você deve fazer aos outros o que gostaria que fizessem por você. A pesquisa de Kesser sugere uma atualização moderna: a Regra do Eu Quero Coisas Que Valem Ouro. Quanto mais você achar que o propósito da vida é ter coisas, mais infeliz, deprimido e ansioso será. Não precisamos continuar a viver dessa maneira.

Tradução livre do original We know junk food makes us sick. Are ‘junk values’ making us depressed?

 

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Publicado em 23 de janeiro de 2018 por em Felicidade.

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